Sobre o post anterior

30/Julho/2008

Trata-se de uma reclamação, expressão de uma indignação. Todo mês, é a mesma coisa. Preciso do vale-transporte, a empresa enfrenta a maior burocracia, eu preciso arrumar um jeito de comprar o vale, ele não é vendido na quantidade necessária… enfim, uma enrosco só. Um pouquinho de boa vontade já ajudava a resolver esse negócio. E acho que por isso a revolta é maior ainda!


Sobre a venda de vale-transporte

30/Julho/2008

Que vale-transporte é um direito do trabalhador, ninguém contesta e quase toda empresa reconhece. Mas e quanto às obrigações das empresas de transporte coletivo? Segundo a lei 7.418, de 16 de dezembro de 1985,

Art. 6º A empresa operadora do sistema de transporte coletivo público fica obrigada a emitir e a comercializar o Vale-Transporte, ao preço da tarifa vigente, colocando-o à disposição dos empregadores em geral e assumindo os custos dessa obrigação, sem repassá-los para a tarifa dos serviços.

§ 1º A emissão e a comercialização do Vale-Transporte poderão também ser efetuadas pelo órgão de gerência ou pelo poder concedente, quando este tiver a competência legal para emissão de passes.

§ 2º Fica facultado à empresa operadora delegar a emissão e a comercialização do Vale-Transporte, bem como consorciar-se em central de vendas, para efeito de cumprimento do disposto nesta Lei.

§ 3º Para fins de cálculo do valor do Vale-Transporte, será adotada a tarifa integral do deslocamento do trabalhador, sem descontos, mesmo que previstos na legislação local.

Infelizmente as empresas responsáveis pelos serviços de transporte que utilizo não dão muita bola para a lei, porque

- vendem o vale-transporte, mas só onde querem;
- vendem o vale-transporte, mas só no horário que querem;
- vendem o vale-transporte, mas só na quantia que querem.

Explico-me. Uso ônibus da ETCSBC, trólebus da EMTU e trem da CPTM. Todo santo dia. E todo santo mês é o mesmo imbróglio: para andar de trem, uso Bilhete Único, que acho muito eficiente, mas para usar trólebus preciso de passe magnético - vendido apenas em uma loja em São Bernardo, de segunda a sexta, das 9h às 16h, em cartelas fechadas com 20 passes e pagamento obrigatoriamente em cheque administrativo -, já as viagens de ônibus são pagas com passe de papel, cujos pontos de venda são de fácil acesso, mas funcionam em horários restritos, e cuja venda limita-se a cartelas fechadas, com pagamento em dinheiro ou depósito em conta comprovado por recibo e carta da empresa empregadora. É burocracia demais.

Tanto eu como os funcionários da empresa onde trabalho responsáveis pela aquisição do vale-transporte precisamos de muita determinação para vencer esse amontoado de normas sem sentido, que a meu ver só estão aí para desestimular o cumprimento da lei. Por que as lojas que vendem passe só abrem de segunda a sexta? Por que só funcionam das 9h às 16h? Por que só se vendem cartelas fechadas e não a quantia necessária para o mês? Por que não existem outras formas de pagamento?

No fundo, é ridículo que para esses três tipos de transporte eu tenha de utilizar três tipos diferentes de passe. Porque a integração entre trem e trólebus é tão óbvia que até o terminal deste e a estação daquele encontram-se mais ou menos interligados. E como o trólebus só atende ao centro de São Bernardo, também é óbvio que as pessoas precisam de ônibus municipais para chegarem até ele. Enfim, não dá para entender por que essas três modalidades de transporte não estão integradas - inclusive em termos de tarifa - e por que São Bernardo é um dos poucos municípios da Região Metropolitana de São Paulo que ainda não utiliza cartões magnéticos para o pagamento das passagens. O Cartão BOM é uma realidade que há muito tempo facilita a vida de passageiros de inúmeras localidades, menos para quem transita em São Bernardo, seja de ônibus, seja de trólebus.

Aliás, ridículo mesmo é eu precisar de três conduções para chegar ao serviço, mas aí já entram outras questões que ficam para uma próxima manifestação.

Já fui informada de que se estuda a implantação uma nova forma de pagamento de passagem tanto nos ônibus como nos trólebus, porém, ninguém sabe me dizer ao certo do que se trata nem o prazo para concretização. Uma promessa ao léu, é o que parece.

De imediato, já ajudaria bastante se os passes fossem vendidos na quantia solicitada pela empresa. O mês tem 22 dias úteis? Então o trabalhador precisa de 44 passes, oras. Se apenas 40 são comprados, o trabalhador fica com 4 a menos. Se se adquirem 60, a empresa tem de se virar para lançar o excedente em suas contas. Enfim, não vejo impeditivo para a venda de 44, 42 ou qualquer quantia que seja de passes. A não ser, claro, a preguiça do vendedor.

Espero que as empresas e os órgãos relativos a transporte coletivo assumam suas responsabilidades. Eu sou uma cidadã brasileira, voto, pago imposto, e sinto-me ultrajada com tanto serviço mal prestado. Milhares de outras pessoas sentem o mesmo, estejam certos disso.

Obrigada,

Denise Yoshie Niy de Morais
31 anos
São Bernardo do Campo - SP

***

Carta enviada aos e-mails:
cmtsp@cmtsp.com.br
etcsbcdo@vivax.com.br
atendimento@metra.com.br
sbctrans@uol.com.br

Uma versão resumida foi enviada pelo formulário:
http://www.emtu.sp.gov.br/ouvidoria/formulario.htm


Do pedestal para a terra

30/Julho/2008

Eu nunca entendi por que minha mãe não comprava roupas bonitas e combinantes para ela mesma. Também jamais compreendi a ladainha de meu pai, “nunca compro nada para mim, só para os outros”, dizia ele. E eu me perguntava por que raios ele não comprava o que desejava, se afinal ele era o dono do dindim lá em casa. Ou pelo menos o fazedor de dindim.

Incompreensões como essas somente se sanam com o tempo, a idade, a maturidade e… a maternidade. Acredito que se não tivesse me tornado mãe, o comportamento dos meus pais inspiraria em mim enorme admiração devocional, pois ainda enxergaria nessa autoprivação um modo pouco ortodoxo de exercer sua autoridade.

Mas enfim tornei-me mãe.  E conforme as dobrinhas do meu guri se multiplicavam, suas roupinhas encolhiam dia a dia, até que de repente nada mais servia no bebê, exigindo correrias de pai e mãe – primeiro à loja de roupas de bebê e depois… bem, deixemos os detalhes de lado. Ainda que a freqüência desses eventos tenha se reduzido (felizmente), de tempos em tempos somos obrigados a renovar todo o guarda-roupa do pequeno, se não quisermos vesti-lo à moda caiçara, de calças curtas e umbigo de fora. A diferença é que o desespero deu lugar a uma certa satisfação - Murilo está crescendo! E o outro desespero (o de pagar as contas) foi amainado com medidas administrativas já bem conhecidas dos brasileiros medianos como eu, consubstanciadas em um – nem sempre belo – cinto apertado.

Dia desses Murilo se queixava dos tênis e recusava-se a calçá-los. Quando enfim o convencíamos da necessidade dos pisantes, ele se deixava calçar para logo em seguida reclamar “tá apeitado!”. E lá fomos nós atrás de outro par de tênis para o menino.

Agora, olho meus tênis usados diariamente, de segunda a segunda, especialmente no tempo frio, quando as sandálias alternativas não caem bem. Meus pisantes estão OK, mas são únicos, o que jamais me acontecera. Aquela bruma que envolvia meus pais e os elevava a um patamar superior se dissipa suavemente. E sob a imagem dos dois vejo um terreno sólido e fértil que indiscriminadamente chamamos de valores. Toda a composição forma, então, o que hoje entendo ser uma família.


Paladar via DNA

22/Julho/2008

Quando estava grávida, eu vivia me perguntando como o meu pequeno ia ser. Teria ele os cabelos das tias? A pernas do pai? As bochechas da mãe? O nariz do vovô? Ocupava-me, basicamente, das características físicas do garoto e de alguns traços de sua personalidade. Em meus devaneios, jamais poderia supor que algo tão singular como o paladar seria transmitido via DNA. Mas é.

Impressionante como Murilo gosta das mesmas coisas que o pai quando o assunto é comida. O pai truca, diz que o menino gosta mais de salgado do que doce, como a mãe. Contudo, trata-se apenas de um ponto de vista um pouco açucarado, típico de um marmanjo que troca qualquer iguaria salgada por uma sobremesa, “um doce bem doce”, de preferência.

Desde que o menino tem pernas e braços o suficiente para explorar armários, adquirimos o hábito de colocar chocolates, balas e outras guloseimas no alto, tão alto que nem a mãe alcança (e não vale fazer piadas a respeito disso). Até bem pouco tempo, isso era suficiente para evitar que se despertasse o voraz apetite por doces do menino. Eu até me iludia, achando que isso seria suficiente para mantê-lo a salvo do temido açúcar branco, que faz tanto mal para os dentes e que engorda, engorda, engorda, além de operar outras alterações comportamentais pouco desejáveis em uma criança.

Pois bem. Dia desses, Murilo estava no meu colo e avistou, no alto do microondas, a caixa de chocolates. Ele nem disfarçou:

- Qué coate, mamãe.
- O quê?, eu me assustei.
- Cocoate, qué cocoate, eu qué!
- Você quer chocolate?, eu me decepcionei.
- Qué! e seu rosto se iluminou.

Inventei uma história qualquer para postergar a lambança, na expectativa de que o coate seria esquecido. Que nada! A cada 5 minutos o guri me lembrava:

- Agoa qué coate!

Ou então:

- Tá na hora do coate!

Obviamente eu cedi e dei um chocolatinho para ele. Os olhinhos do menino brilharam e na hora ele começou a salivar. Murilo mandou o chocolate para dentro da boca e ficou degustando cada miligrama da guloseima. Minutos depois, cada milímetro do babador era prova contundente de que o menino comera a iguaria de cacau. Nem pude me esquivar das perguntas do pai, que chegou logo a seguir e se assustou com a “disposição” do garoto. Chocolate é estimulante dos bons.


Murilo Maluquinho

21/Julho/2008

Quando era criança, um dos meus programas favoritos era ir até a livraria com o meu pai. Lá chegando, tirava da prateleira alguns títulos, sentava-me no chão (porque na época as livrarias não tinham ambientes especialmente decorados para os pequenos) e então punha-me a selecionar as obras mais interessantes. Segurava o livro com as duas mãos, observava a capa, então passava à quarta capa, folheava de trás para a frente, lia o comecinho do livro, apreciava as ilustrações, quando havia alguma. Então, depois de um tempo, era obrigada a me decidir e sempre acabava convencendo papai a comprar mais de um livro. Ele era generoso nesse e em muitos outros quesitos, e todo mês eu tinha pelo menos dois livros novos na estante. E na cabeça e no coração também.

Alguns dos livros lidos na infância se embrenharam tanto no meu ser que até hoje, se fechar os olhos, posso enxergar suas cores, o tipo de fonte usada, escutar alguns trechos favoritos. Lembro bem do coelhinho que ganhava vida na leitura da mamãe: “1, 2, 3, conte logo de uma vez!”, ele saltitava de uma página a outra. E eu nem tinha 5 anos nessa época.

Outras obras que se incorporaram ao meu repertório são as do Ziraldo. Seus personagens se tornaram tão familiares para mim que, já adulta, em uma bienal do livro, vi um senhor rodeado de pessoas. Na hora exclamei “é o Ziraaaaaldo!” e quase chorei de emoção. Embora nunca tivesse visto o autor ao vivo,  eu o reconheci prontamente, como se aqueles traços que guardava na memória de repente saltassem para a vida, um desenho animado muito bem feito. Fiquei tão feliz só de ver o artista que nem quis entrar na fila para dar um beliscão em seu braço. “Vai que ele é ranzinza”, pensei. Melhor não arriscar e guardar na cabeça a lembrança de um cara que só pode ser superlegal. Tão legal que sua obra atravessa o tempo e continua atual e danada de boa.

Murilo vez ou outra assiste ao programa Menino Maluquinho na TV. E gosta muito, garanto! Coincidência ou não, no fim de semana que passou flagrei o pequeno com um balde na cabeça, sentado no sofá, vendo… Menino Maluquinho, claro!

Então enxerguei as inúmeras semelhanças e diferenças entre o meu menino e o Maluquinho do Ziraldo. Depois de tantas comparações quanto a memória permitiu (pois segui o roteiro do livro, ou o tanto que restou dele na minha cabeça), concluí que toda casa que tem criança tem sempre um tanto de maluquice. Meu Murilo não tem vento nos pés, embora o olho da barriga seja enorme; seu sótão ainda não está povoado de macaquinhos e a mochila não chega na sua frente da escola, simplesmente porque é sempre um adulto que a carrega. Ainda assim, ah, por onde anda, ele sempre leva alegria. Afinal, ele é o MEU Murilo Maluquinho!


Pontualidade

15/Julho/2008

Em empresa que tem catraca na portaria e cartão de ponto eletrônico, o mínimo que se deve fazer é cumprir o horário de expediente. Caso do lugar onde trabalho. E eu, chata que sou, sempre preconizo a pontualidade como item fundamental. Pois bem, chegou a hora de eu me desdizer.

Hoje cedo, pulei da cama e arrumei-me às pressas, ao lembrar que ainda precisava arrumar a mochila do guri. Então, estiquei apressadamente os lençóis da cama e engoli uma fruta enquanto pensava sobre o clima e a roupa adequada para mandar à escola, onde as prôs dariam conta de trocar o guri e de alimentá-lo. Estava nessa indecisão - será que esquenta? - quando ouvi uma vozinha muito gostosa vinda do quarto:

- Mamãezinha…

E como eu não respondesse:

- Mamãezinháaaa…
- Ooooi, Murilo!

Apareci na porta do quarto e ganhei um sorriso maroto. Murilo virou de costas para mim, como faz sempre que deseja jogar um charme. Eu me sentei na beirada da cama, esperando que ele tirasse a mantinha do rosto. Olhou-me de rabo de olho, abraçou a manta novamente, virou de lado, do outro lado.

- Mamãezinha…
- Oi, Murilo, mamãe está aqui! Bom dia!

E o guri sorriu. Esses momentos de preguicinha matinal são tão gostosos! Pena que a gente esteja sempre com pressa de acordar, de sair da cama, de se arrumar, de deixar o lar. Murilo esticou-se todo, então tornou a se encolher e deu mais uma mordida na mantinha.

Já prevendo o desenrolar da história, levei o guri para o interminável xixi matinal. Então, tirei seu pijama, vesti nele uma roupa apresentável, levei o tempo que pude nesse ritual. Murilo esfregava seus pés no meu cabelo e ria, acusando-me de fazer coceguinhas.

Sentei-o na cama, calcei suas meias e seus tênis. E então anunciei:

- Você está prontinho para ir para a escola!

Murilo me olhou com cara de interrogação. Como assim, escola?

- Qué bincá!, ele me falou.
- Isso, você vai brincar com seus amiguinhos, na escola.

Então, o pequeno pegou na minha mão, desceu da cama e me conduziu até a sala.

- Qué bincá, mamãe. Mamãe binca conjunto com Buiyo.

E alguma mãe se atreveria a dizer que não? Fingi ser a cliente do mercadinho, comprei meia dúzia de coisas e então escapei para a cozinha, onde providenciei o café da manhã do menino (uma banana).

Quando voltei, Murilo já me esperava em pé, com um livro na mão.

- Mamãe lê!

Sentamo-nos no meio da sala e, enquanto lia a história (felizmente curta), o guri devorava seu desjejum. As duas atividades se encerraram quase simultaneamente e enfim estávamos prontos para sair.

Andamos, quer dizer, eu andei e carreguei o Murilo, até a escola. Despedi-me do meu pequeno, que me mandou beijos e me deu tchau (o pai vai morrer de inveja se ficar sabendo!), então… vi o meu ônibus passar voando pelo ponto. Arrrrgh! Ainda tentei dar uma de Florence Joiner, mas que nada, perdi o microônibus, que nem estava tão lotado assim. As saídas eram: aguardar mais sei lá quanto tempo até o próximo micro ou andar 20 minutos.

E lá fui eu para uma caminhada matinal forçada. Enferrujada como estou, qualquer atividade física causa estafa. Muitos puf-pufs depois, cheguei ao ponto, depois ao trem e finalmente ao serviço. Meia hora atrasada.

Todas as pessoas para quem contei a minha história relevaram meu atraso. São todas mulheres e mães, porque eu sei escolher muito bem o meu público.

Enfim, nem sempre cumprir o horário de expediente é o item mais importante da agenda. Os pontuais que me desculpem, mas meu Murilo é fundamental.


Notas sobre a festa junina

11/Julho/2008

Tudo bem, chegamos no horário marcado, mas a festa ainda demorou um pouco para começar. Tudo bem, a galera avançou sobre a comida e os churrasqueiros não deram conta de produzir tanto espetinho. Tudo bem, o som da dupla Fábio Henrique e Cassiano estava alto demais e foi prejudicado pelas características do ginásio. Tudo bem, Murilo se entupiu de salsicha (porque o pão quem comeu foi a mamãe) e depois vomitou tudo. Ah, gente, contratempos existem. Mas a festa junina da escolinha do guri foi danada de boa.

Pra começo de conversa, adorei chegar ao ginásio e ver as professoras correndo para lá e para cá que nem loucas. Não que eu tivesse algum desejo secreto de vê-las malhando, nada disso, apenas me contentei com o exemplo que elas – talvez sem saber – transmitiam aos pequenos, enfeitando as paredes, preparando cachorro-quente, arrumando as prendas. E o mais importante: sempre sorrindo.

“A festa ainda me começou!”, reclamou um dos parentes. Ah, deixa disso, isso aqui já está a maior festa, pensei comigo. “Ah, mas logo tudo fica pronto”, respondi. Murilo incorporou o espírito junino e começou a brincar, correr e bater palmas. Ele, o primo Enzo e as outras crianças que já estavam por lá acharam o máximo ter tanto espaço para percorerr livremente, olhando para as peças coloridas que aos poucos surgiam aqui e acolá.

Lembrei-me das quermesses da minha escola, em que os alunos eram responsáveis pelas barracas de todo tipo. Arrecadávamos prendas, solicitávamos às mães que fizessem bolos e tortas para vendermos, bolávamos a escala de trabalho na festa. Era uma obra de fato coletiva e muito gostosa. Para a próxima edição da festinha do Murilo, os pais bem que podiam levar pratos de doces e salgados para venda. Isso aumentaria a variedade de quitutes para os convivas, a um custo um tanto reduzido.

Quando as atividades “oficiais” da festa começaram, Murilo já estava todo suado, cabelo empastelado, camisa amarrotada, lenço retorcido… e tão, tão, tão feliz que dava gosto de ver. Então foi a vez de sua turminha dançar.

“A-e-i-o-u-ipsilone”, cantava Elba Ramalho (se não me engano). E a garotada seguia a tia Ju, pulando freneticamente com os braços para cima. Murilo, que ainda não sabe pular, levantava os pezinhos o mais rápido que conseguia e batia palmas, muitas palmas. Então se formaram os pares e o guri precisou de certa ajuda para segurar a mão da bela Juju. Os dois bailaram como se ali só existissem eles! Coisa mais linda de se ver.

Pena que o Murilo não estava muito a fim de romance. Quando os casais se formaram novamente, a também mestiça Juju veio toda faceira para dançar com o galãzinho, que simplesmente deu as costas para a parceira. Juju fez outra tentativa e mais outra, mas então o bico foi crescendo e ela não teve outra alternativa senão segurar a barra do vestido e comer sua rendinha. Chorou e ficou emburrada por um bom tempo a pobrezinha. E Murilo nem aí, batia palmas e gritava “a-e-i-o-u”. Ô dó da Juju!

Pensei que a dama fosse ficar magoada com o nada-cavaleiro-Murilo. Ah, mas criança sabe superar as adversidades muito melhor do que adulto. Na segunda-feira pós-festa, quando Murilo chegou à escola, Juju veio correndo recebê-lo. Aproximou-se da porta, pôs a cabeça para fora e sorriu para o amiguinho. Os dois então correram pelo páteo, como se não tivessem tempo a perder com mesuras. Afinal, muitas brincadeiras ainda os esperavam!

Fico repassando todas essas imagens na minha cabeça (porque de olfato eu sempre fui ruim, senão lembraria os cheiros também), num esforço enorme para não deixar nada cair no esquecimento. Sei que muita coisa vai se perder ao longo dos anos; espero, ao menos, guardar essa sensação tão gostosa de ver o guri feliz – na escola, na festa junina, em casa.


Legenda tardia

11/Julho/2008

Agora não tem desculpa, quero ver todo mundo cantando com o Murilo. Existem mil variações da música do balãozinho, colei aqui uma versão que se aproxma bastante da que o guri entoa quase diariamente. Virou um mantra lá em casa.

Venha cá meu balãozinho,
diga onde você vai.
Vou fugindo, vou pra longe,
vou pra casa do meu pai.

Ah, ah, ah, mas que tolice,
nunca vi balão ter pai,
fique quieto nesse canto,
que daí você não sai.

Quanta mata pega fogo,
passarinhos vão morrer
e os rios vão secando,
já não podem mais correr.

Eu estou arrependido,
quanto mal faz um balão,
vou ficar aqui quietinho
amarrado num cordão.

A última palavra é, sem dúvidas, “cordão”, mas meu pequeno é criativo demais para aderir às modas sem introduzir pequenas modificações a seu gosto. Então, o cordão virou portão, o que fica bem claro no videozinho.


Canto junino

25/Junho/2008

É uma pena, mas a parentada saiu correndo da festa junina do Murilo e perdeu a melhor parte dela, ou uma das melhores partes. Para que ninguém fique feito madalena arrependida, gravamos o guri em uma de suas performances, cantando a música do balãozinho. Mais sobre as comemorações tradicionais do mês… só quando a mamãe voltar das férias.

 


Balzaquiana com muito orgulho

20/Junho/2008

Ano passado, ao atingir três décadas de existência, sofri de uma forte crise, um desespero, uma agonia, por me ver fora da faixa dos vinte e poucos anos. “Adeus, juventude”, pensei. A saída de casa, o casamento, a maternidade, esses ritos de passagem me encheram de felicidade, preencheram a minha vida, mas ao mesmo tempo fizeram com que eu me enxergasse tão longe da juventude. Se os anos de adolescência estão mais distantes no tempo, não quer dizer, ainda assim, que eu esteja próxima do fim da vida, não é mesmo? Agora sei o que significa maturidade e que, enfim, ela não é tão ruim assim. E também não chega de uma hora para outra, vai aparecendo, aos poucos, como as linhas que progressivamente marcam o meu rosto. O dinheirinho poupado a tanto custo terá, certamente, um destino mais nobre do que o botox. Uma viagem, talvez. Ou um agrado ao meu pequeno, quem sabe. De um modo ou de outro, A mulher de trinta anos, de Honoré de Balzac, foi uma leitura magnífica, pelo prazer que proprocionou e pelas passagens deliciosas que enaltecem a maturidade feminina. Transcrevo, a seguir, um dos meus trechos favoritos:

Durante a breve estação em que a mulher permanece em flor, os caracteres de sua beleza servem admiravelmente bem à dissimulação a que sua fraqueza natural e nossas leis sociais a condenam. Sob as cores de seu rosto jovem, sob o brilho de seus olhos, sob a trama graciosa de seus traços finos, com tantas linhas multiplicadas, curvas ou retas, mas puras e perfeitamente definidas, todas as suas emoções podem permanecer secretas: e o rubor nada revela ao acentuar ainda mais cores já tão vivas; todas as luzes interiores misturam-se tão bem à luz desses olhos flamejantes de vida que a chama passageira de um sofrimento aparece apenas como um encanto a mais. Assim, nada é tão discreto quanto um rosto jovem, porque nada é tão imóvel. O rosto de uma mulher jovem tem a calma, o polimento, o frescor da superfície de um lago. A fisionomia das mulheres só começa aos trinta anos. Até essa idade o pintor só encontra em seus rostos o rosa e o branco, sorrisos e expressões que repetem um mesmo pensamento, pensamento de juventude e amor, pensamento uniforme e sem profundidade; mas, na velhice, tudo na mulher se exprimiu, as paixões se incrustaram em seu rosto; ela foi amante, esposa, mãe; as expressões mais violentas da alegria e da dor acabaram por caracterizar, torturar seus traços, imprimindo neles mil rugas, todas com uma linguagem; e um rosto de mulher torna-se então sublime de horror, belo de melancolia, ou magnífico de calma; se é lícito prosseguir essa estranha metáfora, o lago seco deixa ver então os traços de todas as torrentes que o produziram; e o rosto envelhecido de mulher não pertence mais nem à sociedade, que frívola, assusta-se ao perceber nele a destruição de todas as idéias de elegância a que está habituada, nem aos artistas vulgares, que nele nada descobrem, mas sim aos verdadeiros poetas, àqueles que têm o sentimento de um belo independente de todas as convenções sobre as quais repousam tantos preconceitos em matéria de arte e de beleza.

A mulher de trinta anos
Honoré de Balzac
Tradução de Paulo Neves
2a. ed.
Porto Alegre: L&PM, 2007. Pág. 200.

PS: O escritor nasceu em 1799, no interior da França, e faleceu 51 anos depois, em Paris. Explica-se, assim, sua concepção de mulher. Pequenos exemplos: à época, aos trinta anos, uma mulher era já madura. O homem, nessa mesma idade, tinha toda a juventude ao seu dispor. Tempos passados, meu bem. E, ainda assim, os quase 200 anos da obra só fazem realçar sua beleza, na minha humilde opinião.