Em empresa que tem catraca na portaria e cartão de ponto eletrônico, o mínimo que se deve fazer é cumprir o horário de expediente. Caso do lugar onde trabalho. E eu, chata que sou, sempre preconizo a pontualidade como item fundamental. Pois bem, chegou a hora de eu me desdizer.
Hoje cedo, pulei da cama e arrumei-me às pressas, ao lembrar que ainda precisava arrumar a mochila do guri. Então, estiquei apressadamente os lençóis da cama e engoli uma fruta enquanto pensava sobre o clima e a roupa adequada para mandar à escola, onde as prôs dariam conta de trocar o guri e de alimentá-lo. Estava nessa indecisão - será que esquenta? - quando ouvi uma vozinha muito gostosa vinda do quarto:
- Mamãezinha…
E como eu não respondesse:
- Mamãezinháaaa…
- Ooooi, Murilo!
Apareci na porta do quarto e ganhei um sorriso maroto. Murilo virou de costas para mim, como faz sempre que deseja jogar um charme. Eu me sentei na beirada da cama, esperando que ele tirasse a mantinha do rosto. Olhou-me de rabo de olho, abraçou a manta novamente, virou de lado, do outro lado.
- Mamãezinha…
- Oi, Murilo, mamãe está aqui! Bom dia!
E o guri sorriu. Esses momentos de preguicinha matinal são tão gostosos! Pena que a gente esteja sempre com pressa de acordar, de sair da cama, de se arrumar, de deixar o lar. Murilo esticou-se todo, então tornou a se encolher e deu mais uma mordida na mantinha.
Já prevendo o desenrolar da história, levei o guri para o interminável xixi matinal. Então, tirei seu pijama, vesti nele uma roupa apresentável, levei o tempo que pude nesse ritual. Murilo esfregava seus pés no meu cabelo e ria, acusando-me de fazer coceguinhas.
Sentei-o na cama, calcei suas meias e seus tênis. E então anunciei:
- Você está prontinho para ir para a escola!
Murilo me olhou com cara de interrogação. Como assim, escola?
- Qué bincá!, ele me falou.
- Isso, você vai brincar com seus amiguinhos, na escola.
Então, o pequeno pegou na minha mão, desceu da cama e me conduziu até a sala.
- Qué bincá, mamãe. Mamãe binca conjunto com Buiyo.
E alguma mãe se atreveria a dizer que não? Fingi ser a cliente do mercadinho, comprei meia dúzia de coisas e então escapei para a cozinha, onde providenciei o café da manhã do menino (uma banana).
Quando voltei, Murilo já me esperava em pé, com um livro na mão.
- Mamãe lê!
Sentamo-nos no meio da sala e, enquanto lia a história (felizmente curta), o guri devorava seu desjejum. As duas atividades se encerraram quase simultaneamente e enfim estávamos prontos para sair.
Andamos, quer dizer, eu andei e carreguei o Murilo, até a escola. Despedi-me do meu pequeno, que me mandou beijos e me deu tchau (o pai vai morrer de inveja se ficar sabendo!), então… vi o meu ônibus passar voando pelo ponto. Arrrrgh! Ainda tentei dar uma de Florence Joiner, mas que nada, perdi o microônibus, que nem estava tão lotado assim. As saídas eram: aguardar mais sei lá quanto tempo até o próximo micro ou andar 20 minutos.
E lá fui eu para uma caminhada matinal forçada. Enferrujada como estou, qualquer atividade física causa estafa. Muitos puf-pufs depois, cheguei ao ponto, depois ao trem e finalmente ao serviço. Meia hora atrasada.
Todas as pessoas para quem contei a minha história relevaram meu atraso. São todas mulheres e mães, porque eu sei escolher muito bem o meu público.
Enfim, nem sempre cumprir o horário de expediente é o item mais importante da agenda. Os pontuais que me desculpem, mas meu Murilo é fundamental.