Reativar a memória e persistir na postura

26/Março/2008

Depois de algumas horas diante do teclado, inevitavelmente sinto o pescoço duro, ombros rígidos, braços pesados. Afasto-me um pouco da mesa e ponho-me a alongar os membros, mexer um pouco daqui e dali, em busca de conforto. O exercício me faria bem, ou melhor, faz bem, mas permaneço por tão pouco tempo em cada posição que as minhas fibras mal têm tempo para se espreguiçar. Faço pose, preparo-me, estico-me e pá-pum, logo estou de volta a minha postura recurvada. Talvez meu grande problema com a vida seja esse mesmo: a falta de persistência na postura.

Acabo de ler Endurance: A lendária expedição de Shackleton à Antártida e pergunto-me o que seria de mim se a vida me colocasse diante de situações como as que o tal Shackleton do título enfrentou. Acho que estaria morta com muito menos peripécias. Na empreitada de que trata o livro, um grupo de homens pretendia atravessar a pé o continente antártico, mas se viu preso no meio do gelo, por meses a fio, antes de alcançar o ponto de início da expedição em terra. Depois, o navio afundou e os aventureiros ainda passaram por inúmeras provações antes de finalmente “voltarem à civilização”. Todos sobreviveram à longa dieta à base de pingüins.

Esses homens passaram muito frio (coisa óbvia de se dizer, mas como eu mal tolero os 10 graus do inverno paulistano, passar a noite em um barquinho de madeira, em pleno oceano, com temperatura negativa e ainda com a roupa molhada… nem dá pra imaginar que sensação é essa), passaram fome, passaram dor, passaram desespero. Devem ter passado saudade também. E ainda assim persistiram, lutaram o quanto puderam por suas vidas, ao menos enquanto durou a expedição. Depois do retorno à sociedade, talvez tenham encontrado muitas dificuldades de adaptação. Eu entendo. Deve ser difícil chegar ao trabalho e ouvir as queixas do colega sobre o excesso de serviço, ou sobre a marmita preparada pela esposa, ou sobre o tempo ruim, ou sobre o sono. Após meses no gelo, em um isolamento não previsto, sob condições ainda menos previsíveis, todo trabalho que não seja o de matar focas para acabar com a própria fome deve parecer bastante edificante. Todas as refeições quentes têm sabor de ceia natalina. Qualquer colchão seco constitui um leito aconchegante.

Curiosamente, comecei a ler o livro de Caroline Alexander em um momento em que mal tinha forças para me manter em pé. Depois de um piti inexplicável no trem (a caminho do serviço), de uma injeção na veia de sei lá o quê, de uma inalação e de mais remédios prescritos, tudo o que consegui fazer foi me jogar na cama – ou melhor, cair nela, porque nem me jogar eu consegui. Dormi. Dormi. Dormi. Os dias que se seguiram – longe do trabalho – foram de pura letargia, não sei se pelos remédios, se pela ressaca do piti. Mesmo com o Murilo em casa, mantinha-me sentada o quanto podia, já que deitada o pescoço doía demais. Como também não consigo ficar olhando para o nada (embora nesses dias até isso eu tenha feito bastante), decidi enveredar pelas páginas do Endurance. Foi um ótimo presente de aniversário.

Desde o início do mês, a obra ocupava o topo das minhas leituras de cabeceira – ou seja, recebia atenção diária e ao mesmo tempo precária. Foi só mergulhar de verdade na narrativa para me tornar dependente dela, como se a minha recuperação se condicionasse à notícia de sobrevivência dos aventureiros. Cheguei ao fim do livro jsutamente na retomada das atividades laborais. Não sei qual era o objetivo do meu irmão ao me presentear com o livro, mas sua leitura encheu-me de coragem para enfrentar o mundo – com seus trens cheios e tudo o mais. Também me trouxe à memória meu ex-técnico de natação, Mirco Cevales, cusjos ensinamentos sobre garra e determinação até hoje ressoam em meus ouvidos.

Quando ainda era adolescente, a minha grande paixão era a natação. Treinava diariamente, em dois turnos, sonhava e acordava nadadora, respirando cloro e cheirando a cloro. Consciente de meus limitados talentos, item essencial para qualquer atleta olímpico, esforçava-me cada vez mais nos treinos, na expectativa de que pudesse superar as leis da natureza. Infelizmente a meritocracia não tem muita vez no esporte e as abençoadas pelo dom sempre sobressaíam, às vezes sem muita necessidade de treino, para minha agonia. Um tempo depois, os esforços crescentes e os resultados candentes arrefeceram minha determinação em permanecer no esporte. “Gana para alcançar seus objetivos”, dizia-me o Mircão, dando-me tapinhas na cabeça, mas doía muito ser ultrapassada com tanta facilidade pelas meninas dois anos mais novas do que eu, centímetros mais baixas, quilos mais leves e mais fracas. A minha falta de talento tornava-se uma vergonha. Nas competições, o tutor segurava minhas bochechas com suas enormes mãos espalmadas e, olhando-me por cima de seus óculos, dizia calmamente: “esquece as fedelhas, e tenha gana”. Eu me sentia satisfeita por completar a prova com honra, sem me arrastar (é preciso salientar que o meu menos pior era o nado borboleta, sempre um desafio aos atletas amadores). Resignação, essa era a palavra.

Um dia não deu mais. Larguei os treinos e as competições, embora ainda nutra grande amor pelas piscinas. Se tudo der certo, volto a nadar ainda em abril. Desde 2002 não encaro uma raia diante de mim, com o objetivo de ir e vir tantas vezes quanto o instrutor pedir – ou o fôlego permitir.

É verdade. Mesmo depois de largar o sonho de ser atleta, nunca fiquei tanto tempo afastada dos exercícios natatórios. Em intervalos, inscrevia-me numa academia ou algo semelhante e ia feliz da vida dar as minhas braçadas. Cheguei a participar de competições para “veteranos”, nas quais me dei bem melhor do que quando levava o assunto a sério. Não me refiro a medalhas nem recordes, mesmo porque só encarei provas para “master” (que nome de categoria infeliz, faz-me sentir uma sexagenária). Falo de meu desempenho, único e pessoal, intransferível. Eu contra eu mesma. Dar um último gás antes de bater na parede. Extrair um fôlego extra daquela respirada, para então “bloquear” as últimas braçadas. E depois da chegada – nem sempre uma disputa acirrada –, erguer a cabeça, de boca aberta e fôlego curto, sentir o oxigênio circular rapidamente pelo corpo. Isso sim, era dar o máximo de mim mesma, a gana tão solicitada pelo Mircão. Tive umas surpresas felizes nessas competições. Consegui superar algumas marcas da adolescência, tanto no psicológico como no cronômetro.

Tento tirar uma lição dessas reflexões atiradas. Vivo um momento estranho na minha carreira, como já relatei tantas outras vezes. Inseguranças, decepções, reclamações. E não sou a única balzaquiana nessa condição, o que decobri recentemente.

Tenho um punhado de amigas que admiro muito, de coração. E acho que as admiraria mesmo que as suas qualidades não permitissem qualquer tipo de inspiração, mas esse não é o caso. Todas elas têm lá seus defeitos, como qualquer ser humano, mas elas são ao mesmo tempo bonitas, inteligentes, competentes, esforçadas e, sempre, sempre, amigas. Então, a meu ver, não há mancha que desabone seu caráter de modelo. E sempre foram assim para mim, exemplos, fontes de inspiração e de admiração. Cada uma seguiu seu rumo no trabalho, e elas, por todas as suas qualidades, ascenderam, merecidamente.

Dia desses, encontrei algumas delas para uma roda de conversa, só as comadres. Foi uma tarde superagradável! Longe dos homens (inclusive do meu pequeno!), conversamos sobre várias coisas, mas chamou minha atenção a mudança de rumo na vida de algumas delas… Descobri que minhas amigas também se sentem insatisfeitas com sua posição profissional, seja pelo excesso de trabalho seja pela dificuldade de relacionamentos no serviço. “Dinheiro não é tudo”, disse-me uma delas. Bem, pode não ser tudo para quem tem, mas que resolve muita coisa, isso resolve, pensei na hora. Mas não me atrevi a dizer isso, não quis bancar a vizinha invejosa. À noite, fiquei pensando sobre o assunto. E então me lembrei.

Lembrei-me das muitas opções que tive durante a minha diminuta carreira profissional e dos motivos que me levaram a escolher os caminhos que tomei. Foi outra redescoberta feliz.

Eu tinha acabado de completar 18 anos quando meu pai faleceu. Não posso dizer que foi de uma hora para outra, porque ele já sofrera de uma grave hepatite, fora operado por outro motivo e já fazia um par de anos que sua saúde inspirava cuidados especiais. Mas mesmo assim, eu era tola o suficiente para achar que ele jamais me deixaria. Numa manhã de domingo, ele teve a sua segunda parada respiratória e se foi, para nunca mais voltar.

No velório e no enterro, muitas pessoas apareceram. Gentes desconhecidas, parentes distantes, vizinhos metidos. Uma multidão para se despedir do meu pai e dizer bobagens por aí. Ouvi muita coisa que não queria ter ouvido. Chorei pacas. E depois descobri que boa parte daquilo tudo era um teatrinho terrível, encenado para pôr ainda mais sofrimento no coração de quem já estava partido ao meio, como a minha mãe, eu e meus irmãos. Não digo que outros não estavam tristes pela morte de meu pai, apenas que aquilo tudo só fez com que nós sofrêssemos mais ainda, e em nada aliviou o nosso cotidiano que se arquitetou a seguir. Só depois de um tempo é que a ficha caiu e que percebi o que era conviver com a falta. O desespero, a dor, a possibilidade de a casa ficar desguarnecida – isso se supera com o tempo, a paciência e o trabalho. Mas a falta… essa lacuna fica para sempre e não há como preenchê-la.

De modo bem egoísta, aproximei-me da minha mãe. Tenho vergonha de falar isso, mas eu tinha muito medo de perdê-la (como ainda tenho, mas de maneira diferente). Quis saber mais sobre a vida dela com o meu pai, sobre a vida dele especialmente. Conheci um pai que eu jamais imaginara… dentro daquele corpo baixinho, troncudo, manco, escondia-se um verdadeiro explorador, um homem muito lutador e vitorioso. Não acumulou fortuna, mas deixou uma casa e uma vida bem confortáveis para a família, à custa de muito suor. Meu pai sempre trabalhou muito, muito mesmo, desde cedo até a noite, durante a semana, nos finais de semana, em feriados, nas férias. Tanto é que poucas vezes pudemos viajar em sua companhia. Negligenciou, em nome do conforto familiar, seu bem-estar, sua própria saúde. Fumava e bebia muito – vícios que talvez não sustentasse caso tivesse tempo para o lazer. Enfim, meu pai faleceu muito cedo devido a todos os sacrifícios que empreendeu em prol daqueles que amava, provavelmente sem calcular que a maior dádiva para todos nós se consubstanciava em sua presença, pura e simples.

Antes de fazer 20 anos, eu já tinha decidido não seguir o mesmo caminho.

Nos dias em que passei em casa, enxerguei o que a luta diária tirara das minhas vistas: os meus objetivos, tão importantes para qualquer empreitada. Tive a certeza de estar no rumo certo, de novo tive coragem para persistir em minhas decisões. Brincar de massinha e de carrinho com o Murilo, fazer meia dúzia de bolas de sabão para ele pegar, ensinar parlendas a ele, brigar porque não pode comer chocolate de café da manhã… ah, tem tanta coisa nesse mundo para eu mostrar para o meu guri! Um salário maior não me faria mal, ainda não enlouqueci, contudo não teria condições de oferecer mais a um trabalho do que o empenho atual. De forma alguma. Se pudesse, ficaria ainda mais tempo com o meu pequeno, porque a infância passa tão rápido… e logo logo, ele não vai mais se encantar quando eu acordá-lo, não vai mais abrir aqueles olhos de jabuticaba todo feliz para gritar “hoje é…” para que eu complete “segunda-feira, dia de escola!”. Logo logo ele vai ralhar comigo, mandando-me fechar a porta, vai esfregar os olhos remelentos dizendo que nunca mais vai sair da cama e blablablá. Talvez aí eu queira trabalhar umas vinte horas por dia. Por enquanto, dedico-me integralmente a dar-lhe raízes e asas.

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