A Estação da Luz

17/Abril/2008

Nos últimos anos, a Estação da Luz retomou parte de seu brilho – foi reformada, recebeu o  Museu da Língua Portuguesa, virou cartão-postal (de novo) e locação de filmes e novelas. Na Internet há vários sites com informações diversas sobre essa estação, desde a sua primeira edificação até a atualidade, entre os quais recomendo o Estações Ferroviárias do Brasil. Embora não concentre um volume grande de dados, focaliza a preservação ferroviária e traz fotos antigas interessantes. Eu me limito a descrever o que vejo nas minhas idas e vindas a trabalho.

Segundo dados oficiais, transitam diariamente pela Estação da Luz cerca de 250 mil pessoas, sendo que 80 mil passam pelas catracas com direção à rua (ou desta para o interior da estação). Na lista da CPTM, somente o Brás tem fluxo mais intenso. Dá para imaginar que uma oriental de 52 kg e 1m57 é um nada nesse mundaréu. É assim que eu me sinto, só não sei dizer quando a sensação me atinge com mais força, se no desembarque na Luz ou no embarque.

Após deixar a Estação Brás, o trem se dirige à Luz e, invariavelmente, pára antes de chegar, pois é necessário aguardar que a composição precedente libere a plataforma. Esse tempo de espera nunca é inferior a 3 minutos, limite imposto por questões técnicas. De manhã,  isso causa uma baita ansiedade nos passageiros, que querem chegar logo a seu destino ou porque estão atrasados para o trabalho ou porque não vêem a hora de pechinchar no Bom Retiro e na Rua 25 de Março. Quando o trem estaciona na plataforma, as multidões são separadas pelas portas do trem. De um lado, gente querendo sair. De outro, gente querendo se sentar. O confronto é inevitável.

Passado esse sufoco, vem outro: descer da plataforma para o subterrâneo da estação. Há apenas duas escadas rolantes e uma escada comum, em segundos completamente tomadas pelo povo apressado. Mesmo que se deseje aguardar na plataforma para descer mais tranqüilamente, nem sempre isso é possível, porque a massa de pessoas carrega todos que encontra em seu curso. Como se não bastasse isso, para sair à rua é necessário subir outra escada rolante, também lotada. Para esta há uma escada comum bem larga como opção, mas são tantos degraus que eu em geral desisto, pois ainda tenho um dia inteiro de trabalho pela frente e não ando em boas condições físicas para arriscar a empreitada.

Na hora de ir embora, entrar na estação já é uma tarefa complicada, pois dependendo do horário há filas nas catracas, nas escadas de descida e de subida. Depois vem a plataforma, sempre muito movimentada. Segundo variáveis que fogem a minha compreensão, o “índice de calor humano” varia de alto a insuportável. E quando finalmente um trem estaciona na plataforma, os passageiros brigam para entrar ou para sair, segundo a CPTM, todos em “uma conduta inadequada”. Eu vejo de outra maneira. Trata-se do reflexo do tratamento que esses mesmos passageiros recebem diariamente no próprio trem. Por que não vemos tumulto no metrô? Porque no metrô as pessoas se sentem respeitadas e, mesmo que haja gente demais para metrô de menos, raramente há empurra-empurra. No trem, ninguém tem mais paciência. Puxa vida, todo dia é a mesma coisa: superlotação, passagem cara, ar condicionado mal regulado e ainda querem culpar o próprio usuário?

Acredito que comportamento gera comportamento, então, se a CPTM passar a tratar melhor seus usuários, estes certamente reagirão com menos agressividade a qualquer intercorrência. Mas enquanto forem tratados como animais, não adianta emitir mensagens educativas nem colar cartazes por aí. Como já escrevi outras vezes, esse cotidiano de condução ruim embrutece o comportamento de qualquer um, inclusive o meu. Sim, eu confesso, não espero os passageiros descerem, embarco no contra-fluxo mesmo, dando cotovelada e tudo o mais. Depois de alguns dias espremida contra a porta e correndo o risco de enfiar o pé no vão da plataforma em todas as estações, percebi que a maioria das pessoas que estava sentada era do sexo masculino. Homens altos e fortes. Por que será? Passei a adotar uma postura menos civilizada e, para minha surpresa, quanto mais agressiva sou no embarque, mais chance tenho de uma viagem… mais civilizada, digamos assim. Sentar, nem pensar, mas ter um lugar no chão para firmar os dois pés, sem ser molestada cada vez que alguém deseja passar já é um enorme avanço.

Quanto à superlotação das plataformas e dos trens, o sr. Sérgio de Carvalho Jr., Gerente de Atendimento ao Usuário da CPTM, acredita que nos próximos anos a situação melhorará, com a aquisição de trens e mais todos os planos de aprimoramento que a empresa tem cumprido. Na linha que utilizo, especificamente, alega-se que ocorrerá uma grande melhora com a implantação do Expresso ABC, pois mais trens entrarão em circulação nos horários de pico. Por enquanto, prefiro adotar uma postura de São Tomé, ainda que nutra a esperança por dias melhores.

Com relação ao sufoco no acesso à plataforma e na saída dela, perguntei ao sr. Sérgio por que raios as passarelas superiores da estação não são liberadas – da plataforma, eu só preciaria subir um lance de escadas (atualmente bloqueado por um anteparo de vidro) e então já estaria na rua. Infelizmente para mim, as passarelas constituem também um patrimônio histórico e como tal estão protegidas por inúmeros fatores. Ademais, alega-se que sua estrutura não suportaria um trânsito tão intenso de pessoas. Ainda assim, segundo o colaborador da CPTM, no momento estuda-se uma saída alternativa pelas extremidades da plataforma utilizada pela Linha D. Por meio de escadas comuns (que já estão lá!), seria possível chegar à Rua Mauá. Essa via serviria apenas para saída, mas já seria um grande alívio. Espero que isso saia do estudo e se torne realidade logo, porque eu não suporto mais sair do trem com ar condicionado, descer uma escada rolante lotada, encarar um subterrâneo abafado e quente, para então subir outra escada rolante lotada e só então chegar à rua. Um percurso irracional, a meu ver. E insalubre também, pois o subterrâneo da Estação da Luz sempre apresenta temperaturas elevadas e o ar parece faltar. Antes que me acusem de frescura, o problema é tão sério e evidente que a própria CPTM tenta amenizá-lo, com a instalação de umidificadores de ar. Mas, como sempre, tudo depende de verba, licitação, etc. etc. etc.

Questões burocráticas não me interessam. Enquanto os projetos não saem do papel, a Estação da Luz continua linda – para os turistas e para as câmeras. Para quem a vê de tão perto que enxerga os inúmeros camundongos se divertindo entre os trilhos, a Luz permanece na penumbra. É uma pena.

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Uma resposta para “A Estação da Luz”

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